De romarias e romeiros

Estacionei o carro num beco repleto de gente, ajudada por estranhos a fazer uma marcha atrás que parecia interminável, depois de uns longos minutos num pára-arranca em ruas demasiado estreitas para acolherem tantos carros, vendedores ambulantes e transeuntes. No ar sente-se o cheiro a torresmo, a tortilla e a multidão. Das pessoas que passavam por mim, relembro, sobretudo, o cheiro a amaciador de roupa. Cheiro esse que contrastava com os seus sapatos sujos e com o tempo sempre demasiado quente e húmido, daquele que nos faz suar assim que saímos do duche.

Era tanto o reboliço que quase me arrependi de ter decidido ir, naquele 12 de outubro, ver de perto uma das maiores romarias que têm lugar no México. Não sabia bem ao que ia. Mas não esperava nada daquilo que acabei por encontrar. Rapidamente descobri que, em Guadalajara, o Dia da Raça coincidia com o dia da romaria da Virgem de Zapopan. E, ao olhar em redor, era difícil discernir a qual das celebrações é que era dirigida a parafernália que se vendia nas bancas que se amontoavam por todo o lado. Igualmente não era claro aquilo a que ia cada um dos romeiros mas era certo que o sagrado e o profano se misturavam na mesma medida que o cristão e o pagão.

Ao longe entoavam-se cânticos dedicados à Generala, na barraca de “tamales” a escassos metros de mim, o reguetón em alto volume chamava os clientes que estivessem, eventualmente, indecisos entre saborear aquela pasta de milho adocicada e os tacos dourados da banca ao lado, que nem música tinha. No chão, sobre um pano, cristos crucificados eram vendidos ao lado de outros bibelots como galos e rottweillers em resina, ajaezados para a luta e em tamanho natural.  Algumas das mulheres traziam véus brancos ou negros, rendilhados. Outras, emplumadas, luziam trajes aztecas e equilibravam-se em saltos paradoxalmente altos para os passos de dança que davam sem demasiado esforço. À margem de responsabilidades parentais e familiares, grupos de homens reuniam-se à frente dos postos de tacos, bebendo cerveja e conversando animadamente, entremeando gargalhadas sonoras com o silêncio durante o ato masticatório. 

No centro da praça em frente à Basílica de Zapopan, erguia-se a estátua de João Paulo II, com uma criança pela mão. Talvez em jeito de homenagem aos dois mil milhões de pessoas que se juntaram à população mundial durante o seu pontificado. E, como exemplo vivo da devoção mexicana a Wojtila, por todo o lado, crianças. Muitos bebés e crianças que suportam, de modo mais ou menos paciente, o caos a que irão habituar em anos vindouros.

Relembro Fernando Vallejo e o seu ódio de estimação à figura sinistra que pregou até à morte que uma vida vivida na mais absoluta das misérias era melhor do que a utilização de contracetivos. A miséria e a desigualdade não são pecados por aquelas paragens. Pecado é o livre-arbítrio.

As ruas esventradas, não se sabe se por incúria das autoridades competentes, se por excesso de zelo no momento errado, serviam de palco a um desfile babélico de trajes típicos das mais variadas partes do México. E as cores entravam-nos pelo olhos a dentro. Buliço cromático não só das roupas, mas também dos sarapes, dos bolos, das maquilhagens excessivas, dos brinquedos e das paredes das casas. Os sentidos não podiam descansar em nada em meu redor e com o calor e a poeira era difícil processar tanta informação.

Afastei-me da catedral e, instintivamente, diriji-me para uma das ruas paralelas, fechada ao trânsito. Tinha fome e queria sentar-me em algum lugar. Calculei não ter essa sorte mas já ficava feliz por encontrar uma casa de banho decente. As casas de banho no México são das mais limpas que já tive a oportunidade de utilizar. Não interessa se fica num jardim público, num restaurante da moda ou num “botanero” provinciano. Tudo é escrupulosamente limpo e o cheiro a detergente é-lhes um apanágio. Normalmente são limpas por senhoras de meia-idade e o normal é dar-se um ou dois pesos depois de as utilizarmos. Da primeira vez que fiz uso de uma, fiquei tão impressionada com a extrema higiene – que, segundo rezam os estereótipos, apenas é característica de países do norte- que dei uma nota de 20 pesos à senhora. Para mim, essa era uma quantidade razoável e justa para a retribuição de um trabalho tão ingrato mas feito com tanto afinco. Pela cara dela, percebi que não era comum e mais tarde foi-me dito que, num dia bom, talvez fosse essa a quantia em gorjetas que ela levaria para casa. Para mim, o prazer de entrar numa casa-de- banho pública primorosamente asseada vale muito mais do que isso.

Pedi um granizado ao balcão de uma das lojas de bebidas e doces que ladeavam a estrada fechada aos carros e encaminhei-me para o jardim. As esplanadas estavam repletas de famílias alargadas que não pareciam estar dispostas a demover-se com facilidade da cadeira à sombra tão dificilmente conquistada. À distância, já se ouviam os carrinhos de choque e a musicata dos carrocéis que fazem, universalmente, parte de qualquer celebração, feriado ou festa popular. Sentei-me num dos bancos, ao lado de um cão adormecido, alheio ao chinfrim que o rodeia. No México, há imensos cães abandonados por todo o lado. Seguem um percurso que só eles conhecem e, muitos, já ultrapassaram o medo de estarem à mercê de estranhos e pedem comida descaradamente. Talvez em dia de romaria, os transeuntes fossem mais generosos. Nunca resisto e dou sempre que tenho. E sempre se me aperta um nó na garganta que me faz arder os olhos.

À minha frente, passou uma minúscula velhota com uma indumentária huichol a tocar uma pequena “jarana” colorida. Apercebi-me da semelhança entre ela e a imagem da Pacificadora, criada à imagem dos homens que lhe deram forma. A sua expressão solene e fechada contrastava com a melodia festiva que tocava e, mesmo sem precisar de pedir, as pessoas davam-lhe dinheiro à sua passagem. Talvez tenham feito a mesma associação que eu. Ou então, a generosidade de romeiro é um facto.

Apesar das fortes impressões que tanta novidade me tinha causado, estava cansada, da poeira, do sol e do barulho.

Pensei voltar para o carro, e já me entretinha o pensamento a missão de o encontrar no meio da multidão e das ruas em terra batida.

Deixei para trás o jardim, o cão adormecido, os tamales, as crianças, a Virgem, o reguetón e o Papa. Aguardava-me então a epopeia de, em plena hora de ponta, ir para o centro de uma cidade com 5 milhões de habitantes, onde os transportes públicos não passam de um conceito.  Sem dúvida, uma procissão bem mais profana.

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